Eu até sou uma pessoa que acompanha minimamente o cinema. Vejo filmes e tal, e continuo, ao fim de tantos anos, a ter dúvidas e questões sobre alguns factos que parecem ser constantes nas histórias.
Os vilões. Ora os vilões são normalmente gajos cheios de papel, dir-se-ia mesmo podres de ricos.
O que me faz confusão é de onde é que vem tanto dinheiro. Porque se eles são tão ricos, como é que ninguém dá por eles? Só o herói é que descobre os seus planos. E depois têm toda uma horda de ajudantes que parecem robôs. Ninguém pergunta nada, vestem-se todos de igual e manejam aparelhos sofisticadíssimos sem nunca fazerem asneira. É óbvio que isto é ficção, só pode. Então qual é o sítio onde um gajo anda a mexer naquela maquinaria toda e não faz merda? Nem um acidentezinho de trabalho? O facto de não falarem uns com os outros já é estranho o suficiente, mas é que depois nem sequer se vê ninguém a parar cinco minutos para beber uma “mine” ou para fumar um cigarrito. Lá andam eles, centenas de ajudantes, de um lado para o outro, não se sabe bem a fazer o quê.
E são distraídos como o raio que os parta. O bom da fita consegue sempre andar por ali, debaixo de camiões que estão carregados com um produto qualquer que o vilão quer traficar, ou então atrás de uns barris que existem em todos os filmes e que ao mínimo toque explodem logo, mas ainda o mais surpreendente é que o herói consegue agarrar os maus pela goela, dar-lhe uma pancada e eles nem piam. Mas quem é que adormece com uma pancada? Ainda se for uma arrochada com um bastão de basebol, acredito que o tipo perca os sentidos, agora por amor de Deus, um calduço e ficam a dormir duas horas?! E não gritam, não chamam ninguém! Já nem vou mencionar os coitados que levam um murro e ficam logo K.O., muitas vezes sem derramar uma gota de sangue.
Mas será que ninguém dá com aqueles subterrâneos colossais, cheios de truques, às vezes com silos para lançar mísseis? Passam assim despercebidos? E já agora, onde é que vive aquela gente toda? Têm camaratas para todos? São empregados que vão para casa às três da tarde, quando chegam os colegas do outro turno? O que é que eles dizem às mulheres? “Olá querida. Bem, hoje venho pior do que estragado. O Zé Manel deixou cair um míssil terra-ar e veio de lá o coordenador e começou-me a chatear. Ainda por cima o Tobias está de baixa, porque se entalou na calha que transporta o foguetão que vai levar o satélite-laser. Caraças, a ver se este gajo se despacha a envenenar a população mundial e a dominar o mundo, porque já ando a ficar farto. Depois disto volto para o MacDonald’s.”.
E os fatos todos iguais? A loja que fez aquilo não achou estranha a encomenda? “Bom dia, queria por favor 1500 fatos pretos, de licra, com capuz que só deixe os olhos de fora. Aceita visa?”.
Mas o maior festival de estupidez é a parte final do filme. Então o herói anda 90 minutos a escapar-se das garras do mal, a fugir de 1500 gajos que por mais tiros que disparem nunca lhe acertam, o próprio vilão também tenta uma ou outra vez a sua sorte, e depois é apanhado da maneira mais parva?
Mas um gajo que teve inteligência suficiente para conseguir aquela parafernália toda de armas, de esconderijos, de ajudantes e de gajas boas, não é capaz de matar o herói? Mais, quando finalmente o apanha, não o mata. Primeiro explica-lhe o seu plano, que o herói até já sabia, depois fala-lhe da sua infância, em que o pai era bêbedo, a mãe lhe batia e o irmão o violava, depois diz-lhe que tem a namorada dele presa e mostra-lhe um aparelho que demoraria pelo menos dois dias a construir e onde ela está a dois minutos de cair para um lago cheio de tubarões. Ele já tinha aquilo, a contar que existiria um herói que o ia tentar apanhar? E os tubarões? Como é que os arranjou? Mas ainda pior. Aponta a pistola ao herói, diz-lhe que agora lhe vai dar um tiro e volta a explicar tudo de novo. Nisto, a namorada pede socorro ao desgraçado do herói, que está amarrado a uma cadeira de ferro, com umas tiras de cabedal a prender-lhe as mãos e os pés, e com 35 gajos a apontar-lhe uma metralhadora. O que é que ela quer que ele faça? Que lhes chame nomes até à morte?
Depois desta tourada toda, acontece o inevitável. Há qualquer coisa que corre mal. Um curto-circuito, uma das correias que ficou mal presa, um ajudante que espirra, qualquer coisa que dá ao herói a possibilidade de fugir. E lá acaba ele com aquilo tudo e o vilão fica preso dentro de uma merda que vai explodir. O que me custa é porque é que o vilão não o matou logo. Então se ele fazia tanta questão de lhe explicar tudo, porque é que arriscou que os seus ajudantes andassem atrás dele aos tiros? Podiam acertar-lhe e depois como é que era? Deviam fazer vilões mais espertos, mais práticos.
Aposto que o “Galheiro-Maneta” * não vai nestas cantigas…
* Ver Smile 28
«... dar-lhe (aos maus)...»?
«MacDonald's»?
4, de 1 a 10.
Afixado por: Senhor Doutor em outubro 25, 2003 12:58 PM